Shadow AI: 74% usam IA pessoal no trabalho, mas apenas 30% das empresas têm políticas claras

11/08/2026
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A adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras saltou de 20% para 51% em apenas 12 meses e, no mesmo ritmo, avança um problema silencioso: três em cada quatro profissionais já recorrem a assistentes de IA pessoais no trabalho, enquanto apenas 30% das companhias mantêm políticas claras sobre esse uso.

Esse descompasso alimenta o chamado Shadow AI — o uso de ferramentas de IA sem aprovação ou governança corporativa. A prática coloca dados sensíveis em risco, expõe as empresas a violações da LGPD e pode representar um custo de até US$ 670 mil a mais por incidente de segurança.

Dispositivos corporativos: a porta de entrada do Shadow AI

Os dados vêm do Índice de Transformação Digital Brasil 2025, da PwC Brasil, e do estudo Work:InProgress, do Google Workspace. As duas pesquisas indicam que a adoção da IA ocorre, na maioria das vezes, nos próprios dispositivos corporativos e sem qualquer visibilidade da área de TI — a brecha entre a distribuição de equipamentos e a governança dos softwares é justamente onde o Shadow AI se instala.

Para Vinícius Olivério, CTO da Urmobo, plataforma especializada em gestão e segurança de dispositivos corporativos, trata-se antes de tudo de um problema de visibilidade. "Quando falamos de Shadow AI, estamos falando de aplicativos instalados em smartphones, tablets e notebooks corporativos sem qualquer controle do TI. A empresa sabe quantos dispositivos tem, mas não sabe o que está rodando neles", afirma. Segundo ele, ampliar a visibilidade sobre os aparelhos, com plataformas de gerenciamento centralizadas, permite identificar quais ferramentas estão instaladas e quais dados são acessados antes que ocorram vazamentos.

Governança sem bloquear a inovação

Os especialistas ponderam que a adoção da IA foi mais rápida do que a criação de políticas internas capazes de orientar o seu uso. Rodrigo Hülsenbeck, CEO da Premiersoft, resume que o desafio está na ausência de regras: "Governança em IA não significa burocratizar a inovação. Quando não há políticas claras, ferramentas homologadas e orientação, não há controle sobre quais dados são compartilhados e quais riscos são assumidos".

Para Marcos Gomes, sócio-fundador da Dédalo, consultoria especializada em certificações ISO e normas de Segurança e Privacidade, a tecnologia precisa andar junto com a conscientização das equipes. "A maioria dos colaboradores não tem intenção maliciosa, apenas desconhece os riscos técnicos envolvidos. Contudo, o Shadow AI não é apenas um problema de TI, mas um risco de compliance e governança. Empresas sem protocolos claros operam com uma vulnerabilidade crítica", alerta.

A avaliação é compartilhada por Daniel Torres, CEO da Roboteasy, voltada à automação e à IA para empresas: "Proibir não funciona. Assim como aconteceu com o Shadow IT, bloquear as ferramentas apenas aumenta o uso invisível". Para ele, oferecer plataformas corporativas homologadas, definir políticas simples e investir em capacitação contínua reduz a busca por soluções paralelas.

Shadow Knowledge: o risco de perder conhecimento estratégico

Além dos vazamentos, os especialistas apontam outro efeito menos debatido: a perda do conhecimento produzido dentro das ferramentas de IA. Para Carlos Eduardo Nascimento Guimarães, gerente de governança corporativa da Mirante Tecnologia, muitas empresas restringem o debate à segurança da informação e ignoram o chamado Shadow Knowledge. "Os funcionários passaram a utilizar soluções de IA em seus próprios dispositivos e muito conhecimento é produzido dentro de chats pessoais. Quando um colaborador deixa a empresa, perde-se todo aquele know-how, pois ele nunca foi registrado em sistemas corporativos", explica. Reconhecer o Shadow AI como risco e criar um ambiente com ferramentas homologadas, critérios claros e capacitação contínua, diz ele, é o primeiro passo para enfrentar o problema.

O Shadow AI como sintoma da transformação

Rodrigo Perenha, diretor de tecnologia da Kamino, plataforma de automação financeira, entende o fenômeno como reflexo da transformação no ambiente de trabalho. "Historicamente, toda vez que uma tecnologia aumenta muito a produtividade, as pessoas encontram um jeito de utilizá-la", afirma. Para ele, o uso não autorizado revela uma demanda ainda não atendida: "O Shadow AI é, na verdade, muito mais um sintoma do que o problema em si. Quando um colaborador utiliza uma ferramenta de IA sem autorização, normalmente não está tentando burlar a empresa, mas sim tentando ser mais produtivo".

Da visibilidade à ação

Na avaliação dos especialistas, o caminho é transformar o Shadow AI de problema invisível em oportunidade de estruturação, a partir de três frentes: criar visibilidade técnica sobre o que roda nos dispositivos corporativos, oferecer alternativas seguras homologadas pela empresa e estabelecer políticas claras que orientem o uso sem burocratizar a inovação. Fabio Brodbeck, cofundador e CGO da OSTEC, referência em cibersegurança, resume que o desafio não é impedir o uso da IA, mas permitir sua adoção de forma segura. "O problema central não está na tecnologia em si, mas na ausência de governança sobre as informações compartilhadas. Quanto mais rápido as empresas estruturarem essa governança, menor será o custo de gerenciar o risco", conclui.


Fonte: Com informações de Contábeis